9 de abril de 2013

Quarto Capítulo - Recomeço


Um dia de cada vez.
Esse era o seu pensamento otimista habitual. Não que funcionasse, mas de certa forma era uma maneira de manter-se no presente, mesmo algumas vezes sendo impossível. Suas lembranças eram sempre muito vívidas e faziam seu peito apertar de saudade.
Os seus dias nunca foram os mesmos desde uma pálida e gélida manhã de inverno há dez anos, quando a única pessoa que realmente amou foi tirada abruptamente de perto dela. Alguém insubstituível. E agora ela estava sozinha. Mas de certa forma já estava habituada com a solidão. Não é tão ruim quanto algumas pessoas afirmam, nem tão sombria. Apenas necessária, como se servisse para preencher um vazio impreenchível.
Melody Angnel Guimarães – ou só Mel como prefere ser chamada – caminha lentamente pelos corredores do novo prédio onde irá morar pelos próximos... anos? Talvez. Nem ela mesma sabe. Aos 18 anos suas preocupações estão longe de serem aquelas de jovens comuns que acabaram de sair da escola e estão de olho nas suas futuras carreiras. Não, Mel não é uma garota festeira, sair só se for para ir até uma livraria ou se perder pelas prateleiras intermináveis de uma grande biblioteca; conhecer novas pessoas? Talvez! Personagens de livros conta? Ser alegre e otimista? Não, definitivamente não!
Agora ela esta colocando a chave na fechadura e idealizando uma grande recepção que não acontecerá. Melody, ou só Mel, irá morar por tempo indeterminado em um apartamento de três cômodos – que ela gosta de chamar de loft só para dá um ar de jovial e moderno.
Essa garota diferente, irônica e solitária tem uma grande e sofrida história para nos contar. Uma história de como foi sair do seu país natal há dez anos para morar com o seu pai ausente, depois da morte prematura da sua mãe em consequência de um câncer. Como foi para ela habituar-se a novos ares. Como foi para ela conhecer o primeiro amor e logo em seguida a traição, como foi para ela decidir que não adianta o tamanho dos seus sonhos, sempre terá alguém chamado Deus que fara de tudo para te mostrar que a vida real não é fácil. E principalmente como foi para ela decidir abrir mão da sua família e viver solitariamente entre desconhecidos.
Após entrar no seu novo apartamento, fecha a porta atrás de si e caminha até a grande janela que se encontra na minúscula sala. Dando uma rápida olhava na vista privilegiada que tem da cidade ao entardecer, vai até as caixas que o porteiro a ajudou a carregar até seu novo lar. E calmamente começa a organizar seus poucos pertences, pelo menos aqueles que deram para trazer consigo.
Duas horas depois parou para observar o trabalho feito.
É claro, não deu organizar muita coisa, afinal o espaço era restrito. Mas pelo menos deu para o essencial. No seu quarto tinham apenas uma cama de casal, e um armário embutido, onde guardou suas roupas de maneira organizada, sempre separando cada peça por cor e tom, era meio que uma espécie de terapia para ela.
Na cozinha via-se apenas um pequeno fogão preto, uma geladeira antiga com aparência dos anos cinquenta. E dois bancos altos que ficavam encostados ao balcão.
Na pequena estante que estava na sala colocou alguns dos seus livros preferidos – os únicos que couberam na mala, porém, seu irmão prometera que enviaria o restante o mais rápido possível –; algumas fotografias da família, onde se via claramente a contradição entre alguns dos seus membros. Principalmente entre ela e todo o resto.
Mas, não pelo fato de todos estarem sorrindo naturalmente enquanto ela mantinha um mínimo sorriso tímido em seu rosto. A diferença gritante estava no fato de todos serem loiros de olhos claros, enquanto Mel tinha um cabelo liso negro brilhante e grandes olhos castanho-escuros. Era como se não se encaixasse de verdade naquela família que parecia não pertencê-la.
E isso era tudo.
Com um suspiro satisfeito, decidiu tomar um banho.
Logo depois parou em frente à sua cama, enquanto enxugava os cabelos caprichosamente com uma toalha, olhou para o seu laptop dando mais um suspiro, dessa vez, pensativo.
Ela prometera avisar quando estivesse se estalado, dá notícias. Dizer o que estava achando de voltar a sua cidade natal... E para o desejo e tranquilidade da sua nonna dizer quando voltaria.
Mas ela não faria isso, recomeçar era a sua palavra de ordem. Talvez devesse dizer que não tinha como se comunicar no momento. Mel só queria um pouco de paz. Sem ninguém para olhá-la de esguelha como se esperassem por lágrimas que constantemente ameaçavam vir à tona. Por outro lado era uma obrigação sua ligar para os Angnel, eles eram a sua única família. No entanto, antes de completar tal pensamento foi surpreendida por um bip rítmico que provinha do seu computador. Um novo e-mail.
Não era necessário ver o seu remetendo, ela já sabia de quem se tratava: Juliano, seu irmão mais velho. Na verdade meio-irmão, mas Mel nunca ligou para esse detalhe sem importância. Ela amava cada um dos seus irmãos, o seu real problema era com seu pai, seus irmãos não tinham nada a ver com isso.
Abriu o e-mail e sorriu enquanto lia atentamente e silenciosamente as seguintes palavras:

Querida irmã sem coração,
Já estou com saudades, é estranho não te ver escondida por aqui com algum livro embolorado contra o rosto (risos). Eu sei que você disse que precisava ficar um pouco sozinha, mas saiba que sempre pode contar comigo. Eu sei que você sabe disso, mas não custa nada ratificar, certo? A Isabella e o Pedro também estão com saudades, e é claro que nossa querida avó tem me tirado a paciência querendo saber notícias suas. Não se preocupe, como você me pediu – devo acrescentar, quase implorou? – eu disse que não sabia como entrar em contato com você, e que você faria isso o mais rápido possível só não demore muito, está bem? Eu não sei por que você decidiu se afastar dessa maneira, mas não se isole muito, sentimos a sua falta.
Cuida-se, amo você!
Juliano.
P. S. Viu só? Escrevi em português, somente para você. Mas não fique convencida. E, er... Ele perguntou por você.

Após ler e reler o pequeno, mas emocionante texto, escreveu uma rápida resposta, acrescentando ou retirando algo que achava sem importância. Ela conseguia se expressar melhor em silêncio, falar ou escrever sempre foram coisas difíceis para ela, ou nem sempre... Mas um dia tudo muda, não é mesmo? Sem se quer analisar o e-mail, o enviou fitando a tela do por alguns minutos.
Levantou e foi até a cozinha, seu estômago estava reclamando por alguma comida, colocou duas fatias de pão na torradeira, e um pouco de água para ferver na chaleira. Em seguida pegou um bloquinho de anotações que estava no balcão e começou a fazer uma lista do que precisava fazer no dia seguinte.
  • Comprar algumas frutas;
  • Visitar uma livraria;
  • Comprar um jornal;
  • Arrumar um emprego.
Assim que terminou de preparar o seu chá com torradas decidiu assisti de camarote o lindo pôr-do-sol. Ao longe o sol lançava seus últimos raios enquanto o crepúsculo aos poucos tomava conta do céu azul, e Mel pensou:
O sol se põe para renascer junto com um novo dia... um recomeço.
Assim como ela.

3 comentários:

Joice Lourenço disse...

Aiaiai.....Qual será o mistério da Mel? Amei a personagem.
Curiosa para saber os próximos capítulos.
Beijos ;-)

Vinícius Cannone disse...


Vinícius Cannone disse...

Percebi um mistério sobre a personagem e é algo bom para prender a atenção no texto. Gostei das descrições do local. Embora tenham me avaliado como escritor prolixo não costumo descrever com tantos detalhes os ambientes.

 renata massa